quinta-feira, 8 de maio de 2008

Entrevista



José Renato, 9 anos e Murilo, 6.

- José Renato:

O que você acha que é violência?

"É como se fosse uma guerra. E o que dá medo é das armas"

Você gosta de desenhos que mostram briga?

"Gostava. Agora eu não vejo mais porque parei de gostar. Prefiro ver comédia"

Que tipo de jogo de vídeo game você mais gosta?

"Os de futebol"

E o GTA, você não joga?

"Gosto também. Gosto de dar um pouco de porrada, mas prefiro fazer missão"

Sua mãe deixa você jogar esse tipo de jogo?

"Não, mas eu jogo mesmo assim"

Por que ela não deixa?

"Porque é violento. Ela acha que quando eu crescer talvez eu possa ser assim. Mas não vou ser"

E quando você assistia os desenhos de briga, você sentia vontade de brigar?

"Antes, quando eu assistia Power Rangers, dava vontade de brigar com o Murilo (irmão mais novo)"

Pra você o Power Rangers é muito violento?

"É sim. E chato também. Mesmo sem mostrar o sangue é violento por causa da porrada. É estranho porque só sai faísca quando tem um golpe"

- Murilo:

O que você acha que é violência?

"É uma coisa ruim, igual o meu amigo, João Pedro. Ele é violento porque um dia ele cuspiu em mim"

Você gosta de desenhos que mostram briga?

"Não. Eu gosto só dos bonequinhos pra brincar, mas não gosto mais de assistir"

Que tipo de jogo de vídeo game você mais gosta?

"Futebol"

E o GTA?

"Não gosto porque o carinha mata as pessoas. Eu não gosto de violência. Só brigo com meu irmão porque ele me irrita"

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Violência é diferente de agressividade


Para a psicóloga Ana Bock, professora de psicologia social da PUC, a violência não é necessária para a formação de um ser humano. Ela enfatiza que violência é diferente de agressividade, e esta segunda sim é fundamental. A agressividade tem um aspecto positivo que faz com que o ser humano transforme o ambiente em que vive, já a violência, segundo ela, é algo do aspecto cultural do homem, sendo uma resposta que este dá ao meio em que se encontra quando não encontra outros recursos que seriam mais “pacíficos”.


A agressividade é uma área que vai desde a transformação da natureza em produtos de consumo até nossa intromissão na vida de outras pessoas, estimulando-os a tomar certas iniciativas, boas ou ruins, mas ela sempre tem como objetivo alterar algo ou alguém.


Ana Bock considera que alguns atos violentos hoje em dia ainda são tolerados pela sociedade e outros não, como por exemplo: a sociedade não aceita ver que um criminoso transgrediu as regras estabelecidas cometendo um assassinato. Porém ela não vê como ato violento a tortura que a polícia faz com este mesmo assassino, defendendo inclusive a pena de morte. A noção que temos de violência muda de acordo com o tempo e região em que estamos. Ana lembra que na época do Brasil colônia, a tortura que os europeus impunham aos índios não era visto como algo violento pela sociedade européia.


A psicóloga considera ainda que a violência retratada nos veículos da mídia terciária, por si só, não influencia a ninguém. Em nossa sociedade esta violência é recebida como um modelo de como ser violento. Uma criança é muito mais influenciada por fatores de seu dia-a-dia do que pela mídia em si. Os jogos de vídeo game são vistos como ficção apenas, e segundo ela, as crianças de hoje em dia sabem diferenciar muito bem a ficção da realidade.


Ela considera que a televisão exagera na exibição da violência e que o jornalismo brasileiro se põe na posição de Deus. Um exemplo citado é o caso da menina Isabella, assassinada em São Paulo, em que a mídia se antecipou a justiça, colhendo depoimentos e fatos. Ana Bock acredita que uma criança que crescesse blindada do tema violência não aprenderia a lidar com estas situações, podendo ser mais violenta do que outra criança que teve acesso a essas informações em um primeiro contato com o assunto. Para ela não é necessário blindar nem expor demais o jovem à violência, o equilíbrio seria a melhor saída.

Doutora Fisch critica má influencia da TV

A psicóloga Selma Royzen Fisch mostrou-se a favorável à idéia de que a mídia violenta influencia negativamente os jovens.

Segue abaixo um texto feito pela própria psicológa, que é especializa em psicologia da juventude.


"Atualmente, a televisão é a principal fonte de informação e modelo a ser seguido, papel este que deveria ser cumprido pela família. As crianças ficam cada vez mais tempo em frente à TV, até mesmo na companhia dos pais, que na maioria das vezes apenas assistem aos programas sem se preocupar em avaliar o seu conteúdo.
A televisão deveria ser apenas uma das opções de lazer, as crianças não poderiam, ao meu ver, ficar muito tempo em frente a ela, deveriam realizar tambem outras atividades como: esporte, jogos, brincadeiras, opções culturais.
A TV deveria ter um papel mais positivo no processo da educação das crianças, estimulando, transmitindo conhecimentos úteis, promovendo a inteligência e a aquisição de valores mais aceitáveis socialmente.
Os altos índices de cenas violentas nos programas de televisão e sua influência sobre o comportamento das crianças tem despertado preocupação nos educadores.

O conteúdo dos programas de televisão mudou muito nos últimos anos. Antigamente víamos o herói sacando a arma para salvar outros personagens, hoje vemos bandidos sacando armas, matando e não sendo punidos. A mídia explora o tema da violência tanto em novelas, como em filmes, em esportes, etc. E, de certa forma, influencia a sociedade na aceitação destes comportamentos anti-sociais.
A exposição à violência televisiva pode confundir a capacidade de julgamento moral das crianças, é por isto que devemos evitar expor nossos filhos a este tipo de estímulo (programas de televisão cujo índice de violência seja exagerado), porém, se isto for inevitável é importante que se converse com as crianças a respeito do que foi assistido, pontuando-se que certas atitudes não são adequadas e aceitáveis, principalmente em casos em que um comportamento agressivo ou perverso do personagem não recebe punição.
A violência na mídia é um dos fatores que contribui para o aumento da agressividade e violência em nossa sociedade. O conteúdo violento dos programas de televisão tem um efeito prejudicial sobre o bem-estar psicológico das crianças e tambem dos adultos, porém esta não é a principal razão da agressividade e da violência social.
O principal motivo da agressividade em crianças é a influência que sofrem de seu ambiente real, como por exemplo, guerras, altos índices de criminalidade nas proximidades de seu lar, fazendo com que a criança se sinta permanentemente ameaçada. Outras causas que podem possibilitar a agressividade em crianças é a desagregação familiar, abuso infantil, desemprego, pobreza, entre outros.
Concluindo, não podemos negar o impacto da mídia para explicar atos individuais de violência, porém este fator não é o principal nos casos em que os fatores ressaltados acima tambem estão presentes.
A questão principal é a ponte que a criança estabelece entre a realidade interna e o que assiste na televisão.
Não podemos, portanto, culpar exclusivamente a mídia pela violência social pois ela é apenas uma parte deste processo, temos que encarar as causas principais da violência que estão geralmente relacionadas a fatores sociais".

Texto elaborado pela psicóloga Selma Royzen Fisch, para reponder questões ligadas a jovens e violencia midiatizada

Sociedade gera violência




Continuando o debate sobre a midiatização da violência e o reflexo disto nas crianças e adolescentes, conversamos com professor do Mackenzie, Carlos Sandano. Segundo ele, os jogos eletrônicos violentos, sozinhos, não tornam os jovens mais violentos, o que gera a agressividade e a sociedade que já é violenta por si mesma. Assim os jogos só catalisariam o que a comunidade já gera. Esta seria a razão destes jogos fazerem tanto sucesso, já que o grande público consome muito a violência midiática. Uma boa estrutura familiar e social também inibiriam um comportamento mais agressivo.


O professor acredita que não há problemas que as crianças vejam programas ou joguem games violentos, desde que haja o acompanhamento dos pais e responsáveis. Estes instruiriam os filhos comentando e mostrando as diferenças entre o real e a ficção. Ele ainda afirma que os games possuem um grande impacto sócio educativo e a informação que se obtêm nestes jogos é de mais fácil absorção do que em outras mídias. Entretanto ele criticou jogos como GTA, onde os jogadores ganham se roubarem carros e cometerem outros delitos, o que não acrecsenta nada, segundo o professor.


Sandano é contra a censura dos jogos ou filmes violentos, pois isto impediria o debate público e incentivaria mais a procura dos produtos censurados, já que a pirataria abasteceria este “mercado”. Porém ele é a favor da classificação mais rigorosa, já que crianças de certas idades teriam problemas em classificar o certo e errado o real e a ficção. Com a idade e o aprendizado os jovens podem escolher e diferenciar o certo e o errado.